Ainda inspirado sobre como todos os tipos de morte agem em nós, decidi escrever sobre as mortes na minha vida, já que, surpreendentemente, quase todas, mesmo que poucas, foram traumáticas e repentinas. Não que a morte por si só já não seja traumática, mas sim da forma como aconteceu comigo, ao menos.
Considerando as mortes de pessoas próximas, que eu lembro sem precisar consultar ninguém sobre detalhes, a primeira que perdi foi meu avô materno. Ele morreu de câncer e eu nunca lembro o ano ou qual tipo de câncer, tendo sempre que perguntar a minha mãe. Das lembranças que tenho dele, são ele acusando a mim (seu neto, uma criança de, sei lá, 8 anos) de roubo por que eu achava moedas pela mansão em que ele e minha avó moravam.
Eles moravam em uma mansão porque eram caseiros da chácara onde a mansão ficava, na cidade de Goiânia. Hoje eu não sei mais sobre a real história das moedas. Se eu estou certo, eu realmente achei moedas e me sentia o máximo achando, então peguei algumas do cofrinho dele e fingia que achava. Acho que foi isso.
Também lembro dele puxando a minha orelha com muita força porque saí da casa sem autorização para ver uma pipa que caiu do outro lado da rua. Por fim, lembro EXATAMENTE o dia de sua morte: estavam todos apreensivos com a fraqueza extrema do meu avô, que nos últimos dias estava em casa acamado. Eu estava com minha irmã em uma goiabeira no quintal quando ouvi minha vó gritar "O Severino morreu!", eu e minha irmã ficamos assustados e eu disse pra ela "Talvez ele só desmaiou", quando fomos surpreendidos pela dona da mansão, muito amiga dos meus avós, dizendo "Ele realmente se foi!".
Poucos anos depois a notícia da próxima morte: um tio materno, o José. O irmão mais velho da minha mãe, o que aparentemente ela mais gostava e o que era muito parecido comigo. Se eu não me engano, ele, que era caminhoneiro, foi encontrado morto dentro do caminho após ter sofrido uma parada cardíaca aos 45 anos. Também não tenho certeza da idade.
Apesar de eu ter poucas memórias afetivas com ele, assim como com meu avô Severino, a morte dele repercute de uma forma muito maior na minha vida até hoje. Isso porque são muitas as variáveis envolvidas e que se cruzam no meu destino. Primeiro, ficou incerto se ele morreu por abuso de medicação, álcool ou outras drogas. Segundo, ele já tinha um histórico péssimo de saúde, tendo recebido um rim da minha mãe cinco anos antes por conta de falência renal.
Terceiro, e o mais importante, ele poderia ter a doença genética que eu tenho, mas que a família só descobriu recentemente, o que, por isso, me faz pensar muito mais sobre vida e morte, e o tempo que me resta. Atualmente, apesar de já tomar remédio para o coração, meus exames dizem que estou extremamente saudável, mas manter isso não é uma tarefa saudável, e a energia que gasto com meu cérebro me deixa exausto.
Eu lembro como se fosse ontem o dia em que minha mãe recebeu a notícia da morte do meu tio. Estávamos em alguma fazenda entre Ribeirão Cascalheira e Querência, no Mato Grosso, quando o telefone da casa da fazenda tocou e era pra ela a ligação. Não lembro quem era, mas lembro que ela dizia "Fala logo o que aconteceu!", e quando ela soube lembro dela deitada na cama de um dos quartos chorando inconsolavelmente.
O enterro foi em Goiânia, assim como o do meu avô Severino, pai de José. Eu não fui a nenhum dos enterros, aliás. Meus pais não me levaram e nem a minha irmã, por algum motivo.
Novamente, posso estar enganado, mas pessoas realmente próximas não morreram em um grande período de tempo, quando, infelizmente, meu avô paterno faleceu. Foi em 2010, após algo muito ruim acontecer com meu pai. O pai do meu pai, Antonio Carlos, conhecido como Carlão, com quem eu tive muitas memórias afetivas, sempre foi um modo de perceber como pessoas boas também podem ser más.
Passei a infância e adolescência sabendo histórias de como ele tratava mal a minha vó e outras pessoas, era violento, grosso, traía, mas era um amor com os netos e amigos. Ele já estava debilitado e, para mim, nunca ficou claro se ele se matou ou se também abusou demais de medicações e álcool na noite em que morreu. Mas foi encontrado de manhã, dado a entender que morreu dormindo. Ele foi enterrado na cidade em que morávamos, Barra do Garças.
Dois anos e um mês depois, eu perdi o Junior, como já contei aqui. Foi a primeira pessoa com quem me relacionei amorosamente e que morreu. Depois disso, nunca perdi alguém enquanto estava com a pessoa, mas lembro ao menos de outros quatro rapazes com quem já estive e que não estão mais vivos, um deles conto adiante.
Antes, porém, quatro anos depois do Junior, em 2016, também em um dezembro, minha mãe perdeu outra pessoa. Dessa vez, a mãe dela. Minha vó materna, a Vó Marina, se foi. Ela com certeza foi a pessoa mais próxima que perdi até hoje, afinal eu, com meus 25 anos, na época, havia passado 25 anos sabendo que ela era minha vó, a vendo todos os anos, sem exceção, e recebendo seu amor.
Ela era, e é, um dos maiores exemplos de ser humano que eu tenho até hoje, embora isso não seja exatamente uma coisa boa. Explica: ela era extremamente acomodada com o jeito como a vida era, era aquilo e PRONTO e eu invejo isso, por que eu, por exemplo, não aceito muita coisa que chega até mim.
Parando pra pensar agora, ela era muito peculiar, muito única. Não lembro de conhecer alguém igual a ela, que vai sempre ter um espaço no meu coração. Seus últimos dois anos foram bem difíceis, estava muito debilitada, mas os filhos cuidaram como puderam, até que, um dia, enquanto estava na casa de uma das filhas, não minha mãe, em uma fazenda no interior do Mato Grosso, ela piorou e morreu. O enterro também foi em Barra do Garças onde estão, agora, todos os túmulos da minha família materna, e do meu avô paterno.
Ainda sobre a morte de pessoas com quem me relacionei, lembro desses outros quatros, mas um me marcou. Acho que foi entre 2017 e 2018, um dos períodos mais longos em que estive solteiro e conheci esse meu vizinho. Ele morava dois andares acima de mim, parecia uma boa pessoa, apesar de triste. Não notei nada de estranho nele, nada incomum, como percebo em várias pessoas que conheço.
Mas semanas depois de ter conhecido e ficado com ele uma noite, soube que ele havia morrido. Sua mãe o encontrou já sem vida dias após ele não falar com mais ninguém. Eu soube pelo porteiro e pronto: o trauma estava instalado. Até hoje, vez ou outra, principalmente quando estou só, me vem este medo de morrer e ser encontrado dias depois, por que não tenho ninguém próximo o suficiente pra não me deixar apodrecer na cama caso eu morra subitamente. Não que importe para mim pós morte, mas enquanto estou vivo, infelizmente isso é algo que consome a minha mente, como eu disse, vez ou outra.
Chegamos a 2019 e, em agosto, perdi minha única bisavó viva. Apesar de não ser extremamente ligado a ela, tinha a visitado recentemente e ela era maravilhosa. Só ouço coisas boas sobre e as poucas vezes em que estive com ela pessoalmente comprovei como era um ser de luz, felicidade e serenidade. Eu lembro o ano, pois fiz uma tatuagem na mesma semana em que ela faleceu.
E então, quase seis anos depois sem absolutamente ninguém próximo de mim morrer, no último dia de fevereiro de 2025 recebo a notícia, dada pela minha mãe, em uma noite de sexta-feira de Carnaval que o meu primo havia morrido. Ele, que tinha pouco mais de dois ou três anos de vida do que eu, era forte, bonito, rico, esperto, gente boa, simplesmente não está mais entre nós.
Não o considero, porém, mais próximo do que minha vó materna, claro, por motivos óbvios, mas também por que diferente da minha vó Mariana que eu via todo ano, havia anos em que eu não via o Caio.
E são essas minhas ligações com mortes, que provavelmente definem parte de quem sou hoje. Isso tudo muda a gente e, eu falo com certeza, que foram poucas, e isso mexe muito comigo. Porque a cada ano que passa a possibilidade de haver mais mortes é real, e me preocupa, me faz ser ainda mais sedento pelo hoje, pelo agora, por amar todos que amo cada vez mais e não querer vê-los partir, assim como também não quero partir, claro.
Sinto que isso me torna fraco. Não me sinto preparado para nada. Ainda que tenho passado por outros tipos de luto, diversos, envolvendo trabalho, amores, amigos, e as mortes que ocorrem todos os dias a todos os momentos, dos anônimos aos famosos, nada disso me prepara. Acho que não prepara ninguém.
Ao menos eu posso escrever, o que ajuda a drenar essa tempestade que é minha mente. E assim, quem sabe, renascer de alguma forma. Fazer o que posso por quem já foi, e viver o meu dia.